Alfabetização emocional

Você, como um adulto que é, com certeza sabe identificar e consequentemente consegue lidar de maneira positiva com seus sentimentos. Será mesmo? E quando começa essa empreitada pelo “autoconhecimento”? Como podemos, na posição de professor, colaborar para isso?

De acordo com Daniel Goleman, psicólogo e PhD da Universidade de Harvard, a inteligência emocional é a responsável por permitir que o indivíduo consiga se compreender e assim entender o outro, possibilitando com isso, uma autogestão e maior realização em suas relações interpessoais, e obviamente, intrapessoal também.

Pensando sobre isso, resolvi escrever minha opinião em relação ao tema e apontar exemplos da minha prática pedagógica. Como professora de Educação Infantil há 10 anos, já refleti muito sobre estratégias de como colaborar para que minhas crianças possam expressar oralmente seus sentimentos sem muitas vezes agir pelos impulsos, porém cabe aqui lembrar o quanto esses “impulsos” são “normais” nessa idade, até um determinado limite, como tudo.

Se existe alfabetização sobre o Sistema e Escrita e os conhecimentos sobre matemática por exemplo, tão valorizados no ensino formal, por que alguns professores não se preocupam com a “alfabetização” das emoções? Pois ninguém nasce sabendo como agir em uma situação que lhe desagrada ou até mesmo como identificar um sentimento desses em si. Conhecer-se é a chave para a auto-realização e é um direito de toda criança ser feliz e realizada. E a escola cabe muito bem nesse contexto, pois todo indivíduo passa longos anos nesse ambiente e por isso também é de responsabilidade nossa, os educadores, sua formação emocional.

Mas para que a criança possa expressar-se, ela precisa antes de tudo saber que existem comportamentos “socialmente aceitáveis” e principalmente, ela necessita de intervenções para poder então qualificar seus sentimentos, e para tal, precisa identificar o que está passando pela sua cabeça e pelo seu coração.

Para colaborar com o desenvolvimento emocional das minhas crianças, criei o que chamo de “Roda dos Sentimentos”. Toda sexta-feira meus alunos de quatro anos sentam-se comigo em roda e ao centro dela coloco imagens de crianças com várias expressões faciais delas sorrindo, chorando, felizes, tristes, entediadas, bravas, pensativas e gargalhando.

No começo foi preciso conversar sobre quais situações nos deixam assim e se realmente ao ficarmos tristes, por exemplo, choramos, pois muitas vezes estamos chateados mas não choramos, ou choramos de felicidade. Essa reflexão foi fundamental para esclarecer várias dúvidas e tabus que as crianças têm.

Durante a roda, as crianças são convidadas a escolher uma expressão facial que demonstre algo que sentiu naquela semana na escola, que queira compartilhar. Ao falar, a criança vai se ouvindo e seus sentimentos vão ficando mais claros à medida que os amigos ganham abertura para ir colaborando com suas opiniões, conselhos e vivências. Essa troca é extremamente importante para desenvolverem uma escuta sensível e empatia pelo amigo, além de colaborar para que a criança identifique e nomeie o sentimento envolvido no que acabou de relatar.

Nesse momento, além de escutar atentamente tudo que minhas crianças falam, procuro lhes encorajar a gerenciar suas emoções, e assim, pensar antes de agir, aceitar as frustrações, conseguir lidar com alguma tristeza, enfrentar desafios e se perceber como uma pessoa que possui sentimentos distintos.

Cabe ao adulto iniciar nomeando seus sentimentos perante os pequenos sem subestimar a potência de que toda criança é dotada. Saber falar de sentimentos não é fácil. Entender sentimentos também não.

Que possamos, como educadores, entender que a alfabetização emocional colabora para a formação de seres mais autônomos e capazes de compor uma sociedade mais justa e coerente, pois é uma maneira de ensinar e educar nossas crianças a se relacionar de uma forma mais saudável consigo mesmas e com os outros.

Sejamos exemplos, bons exemplos de como nomear e identificar o que sentimos, falando, demonstrando e nos auto empoderando do que é nosso: nossos pensamentos e sentimentos.

Por Caroline Ciaramicoli.

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